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A culpa será só das Bets?

A culpa será só das Bets?

Manifesto dos clubes coloca o fim das Bets como possível fim do futebol brasileiro. Mas e os dirigentes, como – e onde fica a culpa deles?

Não, a culpa não será por conta do fim das Bets. Na semana passada foi publicado um manifesto assinado por federações estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, além de equipes desses estados.

Tudo por conta de uma mobilização do Governo Federal que trabalha para editar uma Medida Provisória que visa a proibição das Bets no Brasil. O título do manifesto foi: O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO.

Mas, será mesmo que o fim das Bets no Brasil seria o suficiente – ou o responsável direto pelo fim do futebol no país? Minha opinião direta: JAMAIS!

Os clubes lançaram âncoras pesadas e profundas em um modelo de patrocinadores que entraram no país e viram no patrocínio ao esporte, e o futebol no Brasil é o mais popular, uma maneira de se popularizar e expandir de forma rápida sua marca.

E a propaganda não se resume aos clubes, é claro. As emissoras que transmitem futebol e outros esportes estão neste mesmo barco. Anunciar nas transmissões antes, durante e depois das partidas e disputas passou a ser “normal” e isso garante que os direitos de transmissão sejam pagos. Ou isso não é verdade?

Então, qual o motivo para os clubes assinarem um manifesto e alegarem que o fim das Bets seria o fim do futebol? É simples: transferir a incompetência!

Quantos clubes no Brasil, mesmo patrocinados por empresas de apostas, estão em situação difícil, delicada e até mesmo desesperadora financeiramente? Com a entrada das Bets, esse cenário não deveria ter mudado? Mas isso não aconteceu por um ponto que já é discutido no país há anos. Gestão.

Poucos são os clubes que estão com as contas em dia de ponta a ponta em suas administrações. E isso passa por mudanças na gestão, a profissionalização e por dirigentes que estão olhando para os clubes com os objetivos esportivos de visibilidade e conquistas.

Enquanto isso, muitos outros têm em seus quadros pessoas que usam os clubes e a visibilidade para suas imagens, para seus egos e em benefício pessoal, nunca para a instituição e para a alegria e felicidade de seus torcedores. Afinal de contas, o que o torcedor de futebol espera de seus times?

Os torcedores querem seus times disputando títulos e vencendo, que as notícias sobre os clubes não sejam sobre transfer bans, dívidas com outros clubes, multas, ações judiciais de atletas saindo por conta de dívidas trabalhistas, a penhora das instalações esportivas, rendas e as sanções que as péssimas gestões dos clubes carregam.

O fim das Bets não pode – e não vai representar o fim do futebol no Brasil. O que infelizmente está fazendo isso os dirigentes e as pessoas que se apoderaram dos clubes, assumiram posições sem a competência para exercê-las e usam a posição de presidente e outros cargos para inflar seus egos e se apresentarem como poderosos.   

Não defendo as Bets, mesmo ciente de que o Governo Federal viabilizou a atuação destas empresas no país com a regulamentação das apostas esportivas no Brasil com a Lei nº 13.756 em dezembro de 2018, e o mercado de apostas e jogos online com a conhecida Lei das Bets nº 14.790, sancionada em dezembro de 2023.

O que precisa ser feito é o aperfeiçoamento dos dispositivos de controle e fiscalização das apostas online para que os mais vulneráveis não sofram com o vício em apostas e a ilusão do “dinheiro fácil”.    

Abaixo, a íntegra do Manifesto.

O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO

O futebol acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece os desafios que sua expansão traz. Os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das empresas e de todos os setores envolvidos.

Por isso, é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, para reduzir riscos e garantir um mercado responsável.

O Brasil escolheu enfrentar esse desafio pela regulamentação. A regulamentação estabeleceu regras rígidas para as empresas autorizadas a atuar no país, com regras claras que permitem ao Estado fiscalizar o mercado, responsabilizar quem descumpre a lei e combater a atuação de plataformas clandestinas.

Importante ressaltar que, nos últimos anos, o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte. Este investimento impulsionou o futebol brasileiro de tal forma a dominar o cenário sul-americano em competições como a CONMEBOL Libertadores e a CONMEBOL Sul-Americana e a colocar clubes brasileiros em posição de protagonismo.

Essa presença não se limita aos maiores clubes. Os recursos também alcançam equipes de menor expressão, divisões de acesso e competições com menor exposição comercial. Para muitas destas agremiações, especialmente aquelas localizadas no interior do país, não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento.

Essas receitas são fundamentais para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, profissionais, projetos sociais e departamentos que não geram recursos suficientes para se sustentar de maneira independente, como parte do futebol feminino e a formação de futuros talentos, os primeiros investimentos ameaçados quando a receita cai de forma abrupta.

Assim, os rumores sobre mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas têm gerado enorme preocupação em todos os clubes, federações e entidades de administração do esporte. Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do país. Contratos regularmente firmados, planejamentos plurianuais e compromissos financeiros foram estabelecidos sob um marco regulatório construído pelo próprio Estado.

Para responder a um mercado que já existia e movimentava ilegalmente bilhões de reais, o país instituiu um ambiente regulado. Empresas foram autorizadas, passaram a recolher impostos e assumiram obrigações relacionadas à proteção do consumidor, ao bloqueio de menores, à prevenção de práticas abusivas e ao combate à lavagem de dinheiro e à manipulação de competições. Foi justamente a regulamentação do mercado que retirou o Brasil da liderança do ranking mundial de casos de manipulação.

Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades.

A consequência não será apenas uma porta escancarada para as apostas clandestinas, mas um golpe fatal para o futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência. Isso, sem falar na insegurança jurídica e profissional que a medida acarretaria, especialmente para contratos regularmente firmados e planejamentos construídos sob o marco regulatório aprovado pelo Congresso Nacional e estabelecido pelo próprio Estado.

O que o futebol entende que deve ser feito, com o máximo rigor, é combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção, sem colocar em risco um mercado que foi regulamentado pelo próprio Estado.

O futebol se coloca à disposição do Governo Federal, do Congresso Nacional, das Autoridades Estaduais e Municipais para colaborar em mecanismos mais eficientes de educação e conscientização.

O TORCEDOR NÃO PODE PAGAR ESSA CONTA.

SE ACABAR COM O MERCADO REGULADO, AS APOSTAS NÃO ACABAM.

O FUTEBOL É QUEM ACABA.

André Mendes – Jornalista – Mtb 35.270

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